CARRO – UM SER HUMANO COMO OUTRO QUALQUER

        Seu carro, na sala, aguardando o chá das cinco. (http://nacionaleimportado.blogspot.com.br/2012/04/acidente-com-o-filho-de-eike-batista.html)

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Não tem jeito. Estamos na era carrocêntrica: tudo para o carro e pelo carro, só o carro resolve, temos que fazer tudo de carro, precisamos de comprar carro, muitos carros, o carro é o símbolo do poder e avaliamos as pessoas pelo carro que têm. Milhares de pessoas praticam a idolatria ao carro — nutrem pelo carro amor excessivo, admiração exagerada.

Para elas o carro é um ser humano (parafraseando o Magri, ex-ministro do Trabalho e Previdência Social), explicando na imprensa que não via nada demais o seu motorista levar o cachorro da família para o veterinário na viatura do ministério: “Ele é um ser humano como outro qualquer”, argumentou ele.

Pois bem, os idólatras têm carro grande, muito grande, demonstrando superioridade, poder e intimidação. Conversam com o carro, instalam nele rastreador GPS com microfone espião antifurto — equipamento que localiza qualquer veículo em tempo real, permitindo que você escute o que se conversa dentro dele —, e têm alarme que acusa aproximação demasiada de outro veículo no seu trajeto.

Ao estacionarem verificam os carros ao redor, sua cor e estado de conservação, na tentativa de traçar um suposto perfil de seu dono e avaliar o grau de risco de ser arranhado ou batido. No estacionamento do trabalho, procura estacionar perto de colegas de sua confiança. Colega mulher, nunca.

Também jamais vão à praia e estacionam na orla. Procuram sempre um parente, um amigo que more em um prédio próximo à praia com vaga na garagem sobrando. 

Parar na rua, numa vaga qualquer, por exemplo, no Vaga Certa e Rio Rotativo, nem pensar. Valet Parking? Só morto. Entregar seu querido automóvel para estranhos dirigirem e enfiá-lo em um buraco qualquer? Imaginem o trauma psicológico do carro depois desse abandono. A mesma coisa no Maracanã, ou estacionam lá dentro ou param no Tijuca Off Shopping e vão caminhando.

Para lavar o carro, tomam conta o tempo todo de quem o está lavando, e no posto de gasolina, saltam para fiscalizar o frentista para ver se vai escorrer combustível.

Não dão carona a qualquer um, depende da pessoa. Quando convidados para um fim de semana fora na casa de um amigo, dão desculpas que não podem ir por causa de um compromisso inadiável, quando, na verdade, o que os impedem são as condições da estrada, do caminho, onde vão estacionar lá. Tudo já analisado previamente pelo praticante da idolatria.

Se um pedinte-lavador de para-brisas, desses que ficam nos sinais, atingir o seu carro com um esguicho de um líquido (sabe-se lá de onde vem esse líquido), provoca no idólatra súbito aumento da pressão arterial, taquicardia e sinais de síncope.

E falando de risco e arranhado, se – Deus me livre ou nos livre – ao chegarem para abrir a porta e notarem um arranhão de fora a fora na lateral do carro, desses feitos com prego, aí não tem jeito, é emergência médica, estado de coma!

Sobre o Autor

Mário Márcio Leal

Sou patologista humano, mas no momento estou interessado na patologia do ser urbano e sua principal doença - O ENGARRAFAMENTO.

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